O que a Feira Catarinense do Livro de Florianópolis tem a aprender com outros eventos do gênero pelo Estado

Feiras como as de Joinville e Jaraguá do Sul tornaram-se referência no Sul do Brasil, com programação cultural consistente e convidados ilustres.

O que a Feira Catarinense do Livro de Florianópolis tem a aprender com outros eventos do gênero pelo Estado Charles Guerra/Agencia RBS
Com o encerramento amanhã da 7ª edição da Feira Catarinense do Livro, a pergunta para quem mora ou visita Florianópolis é: por que a Capital do Estado não consegue promover uma feira do livro à altura das realizadas em outras cidades catarinenses? A resposta vem a partir do exemplo positivo de Joinville e Jaraguá do Sul, que sediam feiras literárias de referência no Sul do Brasil e estabelecem parcerias entre o poder público e a iniciativa privada.
Aberta no dia 6 de maio no Largo da Alfândega, a Feira Catarinense do Livro tem 11 expositores que podem ser visitados em poucos 25 minutos. Os estandes são repetitivos em variedade literária: à parte o espaço da Editora Vozes, da EdUFSC e da Federação Espírita Catarinense e Brasileira, com obras de temas mais específicos, a maior parte vende livros de ponta de estoque, clássicos em edições não tão modernas a preços baixos - pode-se comprar até três por R$ 10 - e livros para crianças que fogem do gênero literatura infantil para se tornarem brinquedos. Os títulos mais vendidos e lançamentos não têm descontos tão atraentes e alguns custam até mais caros que em livrarias.
- O interessante em uma feira é saber das novidades, descobrir o que está surgindo na literatura, as tendências - opina o escritor Amilcar Neves, cronista do Diário Catarinense.
Acostumado a frequentar eventos literários, na última terça-feira, o escritor, a pedido da reportagem, fez um passeio pela Feira da Capital para comentar os pontos positivos e negativos. Destacou as barganhas, mas observou a falta de uma programação consistente para atrair o público.
Para Fábio Lopes, diretor da Editora da UFSC (EdUFSC), as feiras da Capital ainda são modestas e precisariam de um trabalho de articulação com editoras mais conhecidas para ganhar em consistência.

Sem acertos

Os dois principais eventos livreiros de Florianópolis - Feira Catarinense do Livro, que está na sétima edição e ocorre sempre em maio, e Feira do Livro de Florianópolis, que no segundo semestre terá sua 29ª edição - são realizados pela Câmara Catarinense do Livro (CCL), entidade sociocultural sem fins lucrativos criada em 1970.
- As últimas edições foram realizadas com recursos dos próprios expositores. Não temos verba de outros órgãos - afirma a presidente da CCL, Irene Rios.
É com essa explicação que ela rebate as críticas. Segundo Irene, o projeto da Feira foi aprovado pela Lei Rouanet, mas não conseguiu captar recursos. Até 2012, o apoio do governo municipal se dava por meio da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, que comprava um estande para comercialização de títulos editados pela entidade. No ano passado, a Fundação chegou a colaborar com a programação cultural, mas em 2014 o apoio passou longe.
- É uma ação privada, não é uma feira proposta pelo município. Este ano não nos procuraram. Podemos estudar juridicamente como participar, mas esse estudo ocorre a partir de uma reivindicação - afirma Luiz Moukarzel, secretário de Cultura de Florianópolis.
Segundo ele, uma feira do livro não pode apenas ter o foco comercial - as vendas são uma consequência, não a causa.
7ª Feira Catarinense do Livro (6 a 17 de maio de 2014)
(números estimados antes do fechamento da feira neste sábado)

50 mil pessoas 
45 mil livros vendidos 
11 expositores
20 atividades com autores (sessões de autógrafos / lançamentos. Alguns autores participaram de mais de uma atividade)
3 sessões de contações de histórias por dia
Palestras diárias sobre o tema da feira em 2014: Leitura e Trânsito - Educando para a vida
R$ 85 mil de orçamento

Bons exemplos
Apresentamos três exemplos bem sucedidos de feiras de livros em Santa Catarina. Duas delas são veteranas, como a Feira do Livro de Joinville e Feira do Livro de Jaraguá do Sul, e o terceiro é o estreante Salão do Livro da Serra Catarinense, em Lages.
Feira do Livro de Joinville (4 a 13 de abril de 2014)
Feira do Livro de Joinville é um dos importantes eventos literários do Sul do Brasil. Ao longo de 11 edições passou a ser não apenas oportunidade de comércio, mas agente formador de leitores. A comissão organizadora tem o cuidado de buscar bons curadores e apostar em atividades artístico-culturais para atrair público, trabalho realizado durante todo o ano.
A última edição, realizada no começo do mês passado, contou com recurso graúdo, no valor de R$ 600 mil, e para 2015 o orçamento previsto é de R$ 1 milhão.
- A busca por recursos é difícil, um trabalho de luta, convencimento e consistência - afirma Sueli Brandão, presidente da comissão organizadora.
Em números - Edição de 2014
75 mil pessoas
70 mil livros vendidos
50 expositores
40 autores convidados, entre eles Ana Maria Machado
74 lançamentos de livros
42 apresentações de teatro, música, dança, cinema e contação de historias
R$ 600 mil de orçamento - 10% verba do poder público municipal e 90% da iniciativa privada

Feira do Livro de Jaraguá do Sul (5 a 15 de junho de 2014)
Muito mais que feira, Jaraguá do Sul sedia um grande acontecimento literário, com atividades culturais e convidados de renome. Este ano, a oitava edição terá a presença do músico Dado Villa-Lobos, da lendária Legião Urbana, do escritor e jornalista Michel Laub, do contador de histórias Paulo Freire e dos escritores Carlos Fialho, Drica Pinotti e Leila Rego. O evento ocorre entre os dias 5 e 15 de junho.
- Se não houver envolvimento do poder público e iniciativa privada não há feira, especialmente em termos de programação literária - afirma o escritor Carlos Henrique Schroeder, organizador do evento e também curador das feiras de Rio do Sul e do Salão da Serra Catarinense.
Em números - Edição de 2013
81.956 mil pessoas
61,2 mil livros vendidos
15 expositores
Autores convidados: Zeca Baleiro, Adriana Calcanhotto, Daniel Munduruku
192 sessões de contações de histórias

Para a edição 2014 (5 a 15 de junho)

R$ 250 mil - 67% de investimentos da iniciativa privada através da Lei Rouanet ou de apoios diretos e parceiros privados e 33% de recursos públicos do município
30 estandes
17 editoras diferentes

Salão do Livro da Serra Catarinense (24 a 30 de março de 2014)
No final de março Lages abriu o circuito de feiras de livros no Estado com o Salão do Livro da Serra Catarinense. Em sua primeira edição o evento conseguiu a façanha de mobilizar 21 mil pessoas - quase o dobro do estimado - e movimentar a cena cultural da região.
- Fizemos um evento gratuito, com boa programação e livros a preços acessíveis. Nosso foco foi o livro, mas com ênfase no leitor - afirma Adilson de Oliveira Freitas, diretor de articulação e difusão cultural da Fundação Cultural de Lages.
O custo todo foi bancado pela Prefeitura - o projeto do Salão foi aprovado pela Lei Rouanet, mas os organizadores ainda não conseguiram captar toda a verba. A próxima edição já está sendo planejada.
Em números
21 mil pessoas
25 mil livros vendidos
15 expositores
2 autores convidados: Humberto Gessinger e Cristovao Tezza
5 mesas literárias
7 lançamentos de livros
4 atividades A palavra do autor
28 contações de histórias
7 apresentações de teatro, música e dança
R$ 70 mil de orçamento - custo bancado pela Prefeitura de Lages.

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